O sono é um estado fisiológico comum a quase todos os animais, embora se apresente em cada um deles sob características próprias. As investigações científicas acerca do sono iniciam-se em meados do século XX. Até então, acreditava-se que o indivíduo dormia para recuperar as energias, e que nenhuma atividade cerebral ocorria durante o sono. Os primeiros registros eletroencefalográficos realizados por Hans Berger nos anos 30, provaram que a atividade cerebral não cessa em nenhum momento do ciclo sono-vigília, mas sim que ele se modifica conforme o estado de consciência. 1
Assim, o sono é decorrente da atividade de várias estruturas do cérebro, e envolve mecanismos bem complexos. Diversos problemas podem ser desencadeados, caso exista alguma alteração em um ou mais mecanismos do sono. Esses problemas variam de acordo com a estrutura e o mecanismo atingidos, e assim os Transtornos do Sono (TS) apresentam diversas causas, sintomas e conseqüências. 1
Durante o período de sono, as atividades cerebrais registram 5 estágios distintos e progressivos, que levam o indivíduo do sono mais leve ao mais profundo. Os quatro primeiros são os estágios de sono de movimentos oculares não rápidos (NREM), e o quinto estágio é o sono de movimentos oculares rápidos (REM). A fase REM é quando se dá o sono mais profundo, e a ocorrência da maior parte dos sonhos. Do tempo total de sono, cerca de 30% é ocupado pelos estágios 1. 3 e 4; 50% pelo estágio 2 e 20% pelo sono REM. Já as crianças passam mais da metade do tempo dormido no estágio REM. 2,3
É sabida que a boa qualidade do sono propicia ao indivíduo a melhora de sua qualidade de vida no geral. Em crianças e adolescentes, por exemplo, é durante o sono que ocorre a liberação do hormônio do crescimento. O sono favorece o funcionamento adequado do sistema nervoso, por meio da estabilização dos neurotransmissores que tanto influenciam nas funções cognitivas, entre elas a atenção, a memória e as funções executivas. Vale ressaltar que o indivíduo que apresenta a estas funções cognitivas estáveis possui maior capacidade para rendimento profissional e acadêmico. 2
Para se ter uma idéia da importância do sono na saúde mental do ser humano, há pessoas que desenvolvem transtornos do humor (por exemplo, a depressão), devido a persistência de sua má qualidade do sono.
Os Transtornos do Sono (TS) são definidos por um padrão alterado e persistente da qualidade e da quantidade do sono. Existem dezenas de tipos de TS, no entanto eles são classificados em quatro categorias principais. Veja abaixo algumas informações sobre os quadros que pertencem aos Transtornos Primários do Sono. As outras categorias dos TS são: Transtornos do Sono relacionado a outro transtorno mental; Transtorno do Sono devido à uma condição médica geral; e Transtorno do Sono induzido por substância 3
Transtornos Primários do Sono
- Dissonias
Este subtipo dos TS é caracterizado por alterações na quantidade, qualidade ou regulação do sono. Os quadros de dissonias mais comuns são:
- Insônia: não é considerada uma doença em si, e sim um sintoma. A quantidade e a qualidade do sono são marcadamente insatisfatórias, pois o indivíduo apresenta dificuldades na conciliação e na manutenção do sono, prejudicando seu bem-estar no dia seguinte 4,5,como: fadiga, ardência nos olhos, irritabilidade, ansiedade, baixos níveis de atenção, concentração e memória, e sonolência diurna. 6
É importante lembrar que, embora boa parte das pessoas apresente algum episódio de insônia ao longo da vida, cerca de 10% da população geral sofre do problema de forma crônica, e são esses indivíduos que deverão fazer tratamento, inclusive com medicamentos.
As causas da insônia são variadas; elas podem ser:
- Farmacológicas: substâncias como a caféina, teofilina, efedrina, álcool, corticóides, alguns neurolépticos e antidepressivos podem interferir na qualidade do sono do sujeito.
- Médicas: qualquer doença crônica que provoque dor ou desconforto apresenta-se como fator potencial para causar insônia no indivíduo.
- Psicológicas: ansiedade, depressão e a tensão provocada pelo estresse são as condições psicológicas quase sempre associadas à insônia, principalmente em idosos, e nessa população ainda se incluem os quadros de demência.
- Ambientais: a falta de um horário fixo para dormir e acordar, a prática de atividades estimulantes poucas horas antes de deitar-se, trabalhos noturnos ou ruídos, são alguns fatores ambientais que podem levar o indivíduo a um quadro de insônia.
- Hipersonia: caracteriza-se pela sonolência excessiva crônica, necessidade prolongada de sono (8 a 12 horas), geralmente com dificuldade ao acordar pela manhã. Normalmente, estes indivíduos apresentam necessidade de tirar cochilos durante o dia (por uma hora ou mais), e mesmo assim não se sentem mais dispostas após o despertar. 3,6
- Apnéia: as pessoas que sofrem deste problema costumam ter sua respiração interrompida brevemente, por várias vezes enquanto dormem. Assim, a manutenção do sono é prejudicada devido aos despertares repetidos durante a noite. Geralmente a apnéia está associada aos roncos, já que nesse distúrbio ocorre o estreitamento da via aérea durante a passagem do ar. É mais comum em idosos e pessoas com sobrepeso.4
- Narcolepsia: esse quadro se caracteriza por episódios de sono indesejável com duração curta (segundos ou poucos minutos), e que muitas vezes ocorrem em momentos inoportunos. Os ataques podem incluir cataplexia (perda súbita do tônus muscular, normalmente causada por alguma emoção), paralisia do sono (paralisia total do corpo, com exceção da respiração e dos movimentos oculares), e até mesmo alucinações no início do sono (hipnagógicas) ou ao acordar (hipnopômpicas). 3,5,7
- Parassonias
Caracterizados por episódios comportamentais anormais que ocorrem durante o sono, os quadros mais comuns desse subtipo de TS são:
- Sonambulismo: pessoas sonâmbulas apresentam a primeira terça parte do sono episódios repetidos de levantar-se da cama e embora esteja claramente inconsciente, é capaz de realizar pequenas tarefas como andar, vestir-se, sentar-se, olhar e falar , embora a fala seja desconexa. Dificilmente, o indivíduo se lembra do que ocorreu durante o episódio, e não há indícios científicos de que a pessoa possa sofrer algum dano se despertado durante o episódio de sonambulismo 3,4
- Terror Noturno: caracteriza-se por um brusco despertar, iniciado com um grito de pânico. O indivíduo expressa um medo intenso, apresenta taquicardia, sudorese, respiração ofegante pupilas dilatadas. Os episódios duram cerca de 10 minutos; o indivíduo não se recorda com detalhes do sonho, e não se lembra do que houve ao despertar. 3,4
- Pesadelos: é a vivência repetida de sonhos com componentes extremamente assustadores que levam o sujeito a despertar. Os pesadelos surgem na segunda metade do período de sono, no estágio REM. Normalmente, a pessoa desperta do pesadelo e retorna rapidamente ao estado de alerta, porém com intensa ansiedade e medo, o que dificulta a conciliação do sono no meio da noite. 3
Quanto à prevalência dos TS, estudos norte-americanos indicam que cerca de 1/3 da população apresenta algum tipo de TS. Esse alto índice demonstra quão sensível é a fisiologia do sono, podendo sofrer alterações até mesmo com as preocupações cotidianas. Nessa taxa de prevalência, a insônia é o quadro mais comum. 4
O tratamento dos TS vai depender da causa do problema, e para isso deve ser realizada uma investigação minuciosa por um médico especialista. O tratamento pode incluir medicamentos específicos ou simplesmente uma mudança nos hábitos da pessoa resolverá o problema. Abaixo se encontram algumas dicas para ter uma boa qualidade de sono e prevenir alguns problemas:
- Procure ter entre 7 e 8 horas de sono por noite, em horários regulares;
- Evite cigarros, café, álcool, ou medicamentos que contenham cafeína antes de dormir;
- Evite refeições pesadas antes de deitar-se;
- Praticar exercícios físicos no mínimo no máximo 4 horas antes de dormir;
- Tomar um banho quente 2 horas antes de ir para a cama;
- Evitar cochilos durante o dia;
- Expor-se a luz solar pela manhã e no final da tarde;
- Manter os pés aquecidos;
- Levantar-se após 30 minutos sem conseguir dormir e procurar distrair-se com alguma atividade relaxante até sentir-se sonolento.
Referências bibliográficas
- http://www.ninds.nih.gov/disorders/brain_basics/understanding_sleep.htm
- American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais – 4ª edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
- http://www.psicosite.com.br/tra/out.sono.html
- http://www.sleepdisorders.about.com/
- http://www.psiqweb.med.br/geriat/sonogeri.html
- http://www.neuropsiconews.org.br/43_npn/43_oqueesta.html