Artigos
Monitor on Psychology (Vol 33, n. 7 July/August 2002)
Aliando trabalho e família
É comum que os psicólogos apontem o impacto negativo do trabalho na vida familiar e que problemas familiares podem também gerar dificuldades no trabalho. Mas isso não significa que trabalho e família sejam incompatíveis, ou seja, que tenham impacto negativo um em relação ao outro.
De fato, um crescente número de pesquisas documentam os benefícios que o trabalho traz à vida familiar e vice versa. De acordo com a pesquisa conduzida por Rosalind Chait Barnett, PhD, da Brandeis University, com casais nos quais os homens as esposas são assalariados, verificou-se que homens que têm relações positivas e compensadoras em casa estão mais protegidos do estresse e da sobrecarga vividos no trabalho. Barnett também descobriu que quanto mais o marido se envolve nos cuidados dos filhos, melhor é o seu bem estar e mais alta é a avaliação que a sua esposa faz do casamento. “Há inúmeros benefícios para homens e mulheres que desenvolvem múltiplos papéis”, diz Barnett.
Quais são os fatores que contribuem para um melhor equilíbrio da relação trabalho-família? De acordo com as pesquisas, inclui-se:
O número de horas trabalhadas
Em uma pesquisa publicada no Journal of Occupational Health Psychology (vol. 5, nº1), Grzwacz e Nadine Marks descobriram que empregados que trabalham mais do que 45 horas por semana apresentam maiores conflitos na relação trabalho-família. Por outro lado, participantes que trabalham menos de 20 horas por semana não apontaram grandes benefícios do trabalho em sua vida familiar. “Se você reduzir horas de trabalho, poderá reduzir conflitos, mas também reduzirá os benefícios que o emprego gera à família, como por exemplo, os possíveis ganhos financeiros, na saúde física e na satisfação em relação ao casamento", diz Grzwacz.
Outras pesquisas mostram que a questão não é somente a quantidade de horas trabalhadas, mas como cada um se sente a respeito de seu horário de trabalho. Por exemplo, em um estudo com médicos que trabalhavam meio período, o estresse era decorrente não do número de horas trabalhadas, mas o quanto conseguiam transformar seu trabalho em uma fonte de satisfação pessoal, além de ser compatível com suas necessidades e rotinas familiares.
Autonomia no trabalho
Em um estudo da Universidade da Pensilvânia e Drexel University, Jeffrey Greenhaus e Stewart Friedman, descobriram que a autonomia no trabalho está relacionada com um maior nível de satisfação não só no trabalho, mas também com a educação e comportamento dos filhos. “Uma vez que se tenha maior controle e autonomia no trabalho, aprende-se alguns recursos que são possíveis de serem aplicados no ambiente familiar, além de se ter maior flexibilidade para atender as necessidades familiares”, referiu Grzywacz. Além disso, uma pesquisa da Psychosomatic Medicine (vol. 64, nº3) demonstrou que trabalhadores que têm maior poder de decisão no trabalho têm maior expectativa de vida do que empregados com menor poder de decisão, mesmo considerando que as decisões levem a um maior nível de estresse.
Relações sociais
No seu livro “Work and Family – allies or enemies?”, Friedman e Greenhaus também relatam que pessoas que desenvolvem uma rede de relacionamento social no trabalho estão mais satisfeitas com sua vida familiar e com a educação de seus filhos, conseqüentemente, têm filhos mais saudáveis e com melhor desempenho escolar. Além disso, aqueles que diminuem seu envolvimento social fora do trabalho para atender as demandas familiares, experimentam maiores conflitos não somente na família, mas também no trabalho.
Constituição Familiar
Logicamente, trabalhadores casados ou com filhos mostram mais conflitos família-trabalho do que seus colegas solteiros ou sem filhos. No entanto, também relatam que sua vida familiar tem bem mais efeitos positivos no trabalho. Por exemplo, os casados ou com filhos relataram que falar com alguém em casa os ajuda a lidar com problemas do trabalho e que esse suporte os deixa auto-confiantes profissionalmente.
Gênero
As mulheres ainda despendem muito mais tempo cuidando de sua família. Nos Estados Uniudos, enquanto os homens dedicam em média 7.5 horas por semana cuidando de seus familiares, as mulheres o fazem por 9.5 horas. As mulheres também tendem a ter mais flexibilidade no trabalho em prol da família, seja reduzindo o número de horas trabalhadas ou conseguindo empregos com horários maleáveis.
Definição de limites entre trabalho e família
As profissões que podem ser desempenhadas dentro do ambiente familiar requerem uma definição clara de limite sobre a fronteira entre trabalho e vida familiar, sendo importante para esses profissionais entender como diferenciar esses dois ambientes. Além disso, para achar um equilíbrio feliz os profissionais devem decidir quais são seus papéis mais importantes e quais devem receber mais atenção, compreendendo que essa importância pode variar de tempos em tempos.
De fato, as pesquisas na área da psicologia apontam para 4 estratégias a serem tomadas para administrar trabalho e família, diz Michael Frone, PhD, da State University of New York: procurar suporte social no trabalho ou em outros ambientes, reorganizar o tempo despendido com o trabalho e com a família, redimensionar a importância psicológica de um ou de ambos os papéis e descobrir maneiras de reduzir ou enfrentar melhor o estresse. Uma coisa é certa, diz Grzywacz, “as pesquisas confirmam que os benefícios de uma boa convivência entre trabalho e família são muito melhores do que os problemas que podem surgir desta inter-relação”.
Este texto foi traduzido e adaptado pela Plenamente do site www.apa.org (Monitor on Psychology Vol 33, n. 7 July/August 2002)
Artigos relacionados:
- O que você deve saber sobre a Terapia Cognitiva com crianças. Maria Alice Fontes
- Crianças Superdotadas: como identificar e lidar com elas. Selma Boer, Maria Alice Fontes
- Dicas para o professor lidar com crianças hiperativas e desatentas, Maria Alice Fontes
- O que é a Depressão Infantil? Maria Alice Fontes
- Transtorno de aprendizagem não verbal: já ouviu falar disso? Cristiane Abe da Costa, Maria Alice Fontes
- A socialização infantil e o desenvolvimento emocional saudável. Alessandra de Camargo Costa, Maria Alice Fontes
- As mentiras que as crianças contam. Silvia Pellegrini Ruschel, Maria Alice Fontes
- Estresse infantil: existe e é mais frequente do que pensamos. Silvia P. Ruschel; Maria Alice Fontes
- Síndrome de Alienação Parental (SAP): saiba o que é isto. Alessandra de Camargo Costa, Maria Alice Fontes
- Você estará em São Paulo com as crianças na última semana de Janeiro?
- Oficina dos 5 Sentidos: 26 a 29 de janeiro de 2010
- Você sabe como se forma a personalidade? Maria Alice Fontes P. Novaes
- O que são os transtornos de matemática? Adriana Corrêa Costa, Beatriz Vargas Dorneles
- Ortografia: escrever corretamente é um dom ou depende do ensino nas escolas? Silvia P. Ruschel, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Você tem letra feia? Qual é o problema? Erika Bauer, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Deficiência mental e Síndrome de Down. Silvia P. Ruschel, Maria Alice Fontes P. Novaes
- As férias chegaram! Erika Bauer, Maria Alice Fontes P. Novaes
- O que é o Autismo. Silvia Pellegrini Ruschel, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Você sabe o que é Legastenia? Erika Bauer, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Dificuldades de Aprendizagem e os problemas relacionados. Silvia P. Ruschel, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Ansiedade de Separação. Silvia Ruschel, Maria Alice Fontes
- O que é dislexia? Erika Bauer, Maria Alice Novaes
- Quem são os superdotados?
- A importância dos limites para a formação da criança
- Separação dos pais: como os filhos reagem a essa decisão
- O que é o Bullying
- A importância da atividade lúdica no desenvolvimento psicossocial da criança
- A criança obesa, estigmas sociais e baixa auto estima.
- Amigos imaginários permanecem até os primeiros anos da vida escolar.
- Brincar ou Teclar
- Vídeo-games violentos: psicólogos ajudam a evitar os efeitos prejudiciais em crianças
- A exposição de crianças à violência na TV pode desencadear comportamento agressivo em adultos
- Vídeo-games e TV duplicam o risco de obesidade infantil
- Obesidade Infantil
- Avaliação do Processamento Auditivo: do que estamos falando? (Mari Ivone Misorelli)
- Dificuldades de leitura podem surgir repentinamente após as séries iniciais
- O estilo de aprendizagem e a queixa escolar (Edith Rubinstein)
- Estudo ajuda a identificar crianças com depressão
- O bilingüismo em pauta
- A aquisição de uma segunda língua
- Rotinas e rituais familiares podem melhorar o relacionamento e até a saúde da família
- Depressão dos pais aumenta o risco de ansiedade nos filhos.