Artigos
Set, 2003 - Plenamente
O estilo de aprendizagem e a queixa escolar (Edith Rubinstein)
Considerar o estilo de aprendizagem do sujeito poderá contribuir para questionar as causas da quantidade significativa de crianças com insucesso escolar, as quais, apesar de não serem reprovadas, sofrem pela condição de alunos tidos como medíocres ou desinteressados.
Mas o que é um estilo? O estilo é definido como o conjunto dos caracteres que diferencia uma determinada forma expressiva das outras formas. Deve ser contrastado com o gênero definido como qualquer agrupamento de indivíduos, objetos, fatos e idéias que tenham caracteres iguais. A biografia de Botticelli (Gênios da Pintura,vol 11,pag2) pintor representante da pintura do “Quattrocento” é útil para refletir sobre o binômio estilo/gênero. Naquela época, os artistas dependiam dos nobres e dos papas. Para obter proteção e prestígio, os artistas precisavam das boas graças dos nobres. A arte, enquanto gênero, expressava os ideais daqueles segmentos da sociedade. No gênero da pintura “Quattrocento” predominavam retratos e alegorias dos poderosos de então, narração de episódios bíblicos e outros temas religiosos. Botticelli manifestava seu estilo próprio dentro do gênero renascentista e diferentemente de Leonardo da Vinci, seu contemporâneo, não se preocupou nem com a anatomia e nem com a perspectiva em sua pintura. Considerava estas características uma “cosa intellettuale”, função quase científica. Para Botticelli, ao contrário, o belo está fora da realidade e da experiência. Para ele, a pintura é uma comunicação com Deus.
Assim como no exemplo acima, o aluno está imerso num contexto social. Responde a ele, mas, simultaneamente, manifesta sua singularidade, seu estilo de aprendizagem, que expressa uma forma de lidar com a vida escolar. A queixa escolar expressa algo dissonante, que não está de acordo com o modelo concebido no cenário escolar. São discursos recorrentes: “a letra é feia”, “não se compreende sua escrita, pois é caótica”, “aluno diferente de seus companheiros, fala pouco”, “aluno no mundo da lua”. Quais seriam as possíveis razões para essas dissonâncias? Para alguns, elas representam dificuldades específicas, decorrentes de inabilidades de várias ordens como de pensamento, de coordenação viso motora, da capacidade para estar atento, etc. Opto por contrastar o gênero de ensino e o estilo de aprendizagem para explicar de forma mais abrangente a queixa escolar. Tal como os pintores, o aluno está imerso num discurso social e a ele deve corresponder. Seu estilo de lidar com o conhecimento e o saber depende de como vive e significa esse discurso social. Discurso neste contexto significa: “uma linguagem compartilhada por um grupo de indivíduos, e rege as formas de laço social” ( Petit Robert).
Ora, nossos alunos dissonantes estão mergulhados num discurso social onde o trabalho, o esforço, e o tempo estão regidos por um gênero de vida marcado pelo imediatismo: time is money. A lei é a do esforço mínimo. As regras são mais difíceis de serem cumpridas numa sociedade onde cada vez mais os adultos solicitam participação da criança em decisões, para a qual ela ainda não tem competência. A etimologia da palavra infância tem como origem o sentido de “aquele que não tem voz”, “aquele a quem não se escuta”. Hoje, nossa criança e aluno, além de terem muita voz em decisões, também apresentam mais dificuldade para se curvar diante das normas impostas pelo grupo social. A escola tradicional, enquanto gênero, valorizava a disciplina. O dito popular “é de pequeno que se torce o pepino” sustentava uma pedagogia preocupada com a formalização em detrimento do conteúdo. A escola contemporânea está preocupada não somente com a transmissão de conteúdos, mas, sobretudo, com a construção e reconstrução conceitual. Os conteúdos são pretextos para que o aluno possa aplicar os conceitos em situações diferentes. Para isso, o conteúdo transmitido precisa ser comparado, analisado, relacionado com outros conhecimentos, esperando-se do aluno capacidade para julgar, discernir e produzir um conhecimento onde possa se manifestar e expressar seu pensamento.Esse gênero de ensino demanda do aluno: disciplina, organização, esforço, criatividade, empenho.
Algumas das características do infante contemporâneo são: ter mais voz, menos tolerância à frustração e ao esforço, imediatismo ( “aquilo que não serve para já, não vale”), tudo tem que ser resolvido rapidamente. Mas, como apontei acima, o gênero de ensino da Escola contemporânea demanda um aluno ativo, crítico, participante e criativo. A passagem pela escolaridade é, portanto mais laboriosa do que na Escola tradicional. Nesta bastava desenvolver disciplina para memorizar conteúdos. Será que nossos alunos dissonantes, de alguma forma também não estão denunciando através da queixa escolar, conflitos entre gênero e estilo?
Como afirmei no início, o estilo marca as diferenças e a forma peculiar de lidar com a vida. O estilo de aprendizagem ou a forma peculiar de lidar com o conhecimento e com o saber têm como origem as primeiras experiências de adaptação à vida. É insuficiente olhar para a grafia inadequada do aluno associando-a com sua inabilidade para desenhar e escrever. O que significa desenhar e escrever para esse aluno? Por que não consegue sentar para escrever ou desenhar? Através de sua relação com a escrita, o aluno mostra uma posição singular diante desse conhecimento. Nós, psicopedagogos, estamos interessados em compreender as possíveis razões para o desencontro entre gênero e estilo de aprendizagem. Convido-os a pensar que a passagem pela escolaridade poderá também ser concebida como um gesto estético. Cada aluno, a partir de seu estilo de aprendizagem, lidará com os desafios de forma diferente. A escola tradicional visava à uniformização, todos deviam aprender igualmente. A realidade tem nos mostrado que a verdadeira integração decorre da consideração da alteridade, isto é, das diferenças. Isto implica em dizer que todos devem aprender igualmente numa sociedade onde somos diferentes. O desafio é maior para o educador de hoje. Pais e mestres temos que aprender a lidar com os estilos diferentes, sem desconsiderar o gênero. Cada gesto humano é uma manifestação estética. Não nascemos artistas na arte de viver, tornamos-nos, enquanto vivemos e aprendemos.
Bibliografia
RUBINSTEIN,E.R. O estilo de aprendizagem e a queixa escolar: entre o saber e o conhecer. Casa do Psicólogo: São Paulo, 2003.
Coleção Gênios da Pintura, vol 11, Editora Abril.
Artigos relacionados:
- O que você deve saber sobre a Terapia Cognitiva com crianças. Maria Alice Fontes
- Crianças Superdotadas: como identificar e lidar com elas. Selma Boer, Maria Alice Fontes
- Dicas para o professor lidar com crianças hiperativas e desatentas, Maria Alice Fontes
- O que é a Depressão Infantil? Maria Alice Fontes
- Transtorno de aprendizagem não verbal: já ouviu falar disso? Cristiane Abe da Costa, Maria Alice Fontes
- A socialização infantil e o desenvolvimento emocional saudável. Alessandra de Camargo Costa, Maria Alice Fontes
- As mentiras que as crianças contam. Silvia Pellegrini Ruschel, Maria Alice Fontes
- Estresse infantil: existe e é mais frequente do que pensamos. Silvia P. Ruschel; Maria Alice Fontes
- Síndrome de Alienação Parental (SAP): saiba o que é isto. Alessandra de Camargo Costa, Maria Alice Fontes
- Você estará em São Paulo com as crianças na última semana de Janeiro?
- Oficina dos 5 Sentidos: 26 a 29 de janeiro de 2010
- Você sabe como se forma a personalidade? Maria Alice Fontes P. Novaes
- O que são os transtornos de matemática? Adriana Corrêa Costa, Beatriz Vargas Dorneles
- Ortografia: escrever corretamente é um dom ou depende do ensino nas escolas? Silvia P. Ruschel, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Você tem letra feia? Qual é o problema? Erika Bauer, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Deficiência mental e Síndrome de Down. Silvia P. Ruschel, Maria Alice Fontes P. Novaes
- As férias chegaram! Erika Bauer, Maria Alice Fontes P. Novaes
- O que é o Autismo. Silvia Pellegrini Ruschel, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Você sabe o que é Legastenia? Erika Bauer, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Dificuldades de Aprendizagem e os problemas relacionados. Silvia P. Ruschel, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Ansiedade de Separação. Silvia Ruschel, Maria Alice Fontes
- O que é dislexia? Erika Bauer, Maria Alice Novaes
- Quem são os superdotados?
- A importância dos limites para a formação da criança
- Separação dos pais: como os filhos reagem a essa decisão
- O que é o Bullying
- A importância da atividade lúdica no desenvolvimento psicossocial da criança
- A criança obesa, estigmas sociais e baixa auto estima.
- Amigos imaginários permanecem até os primeiros anos da vida escolar.
- Brincar ou Teclar
- Vídeo-games violentos: psicólogos ajudam a evitar os efeitos prejudiciais em crianças
- A exposição de crianças à violência na TV pode desencadear comportamento agressivo em adultos
- Vídeo-games e TV duplicam o risco de obesidade infantil
- Obesidade Infantil
- Avaliação do Processamento Auditivo: do que estamos falando? (Mari Ivone Misorelli)
- Dificuldades de leitura podem surgir repentinamente após as séries iniciais
- Aliando trabalho e família
- Estudo ajuda a identificar crianças com depressão
- O bilingüismo em pauta
- A aquisição de uma segunda língua
- Rotinas e rituais familiares podem melhorar o relacionamento e até a saúde da família
- Depressão dos pais aumenta o risco de ansiedade nos filhos.