Artigos
Mar, 2003 - Plenamente
O bilingüismo em pauta
Não há dúvida de que quanto antes uma pessoa aprende uma segunda língua, maior facilidade terá em desenvolvê-la. A aquisição bilíngüe da linguagem refere-se ao resultado de uma exposição muito precoce, simultânea, regular e contínua a mais de uma língua (Houwer, 1997). Entretanto, se a criança em grande parte de seu tempo usar apenas um idioma, dificilmente a escola, mesmo que com proposta bilíngüe, garantirá tal desenvolvimento .
De qualquer forma, paralelamente ao desejo crescente de colocar o filho em contato com outra língua de forma natural, gradativa e lúdica o mais cedo possível, vem a angústia das dúvidas: as crianças que aprendem duas línguas podem ter dificuldades em seu desenvolvimento de linguagem? É normal a criança misturar as duas línguas que conhece? O bilingüismo pode lentificar o desenvolvimento da linguagem oral?
A idéia do bilingüismo causar distúrbios de linguagem é uma visão superada e sabe-se, inclusive, que a exposição da criança a duas línguas a incentiva a se concentrar nas propriedades formais de cada uma delas (Pleh e col., 1987), desenvolvendo o que chamamos de consciência metalingüística, ou seja, uma habilidade para refletir sobre a própria linguagem.
Existem diferentes manifestações que podem ser consideradas atividades metalingüísticas, como por exemplo: apreciar rimas, realizar correções gramaticais, contar palavras em uma sentença, julgar se palavras começam ou não com o mesmo som, entre outras. Verifica-se, então, que a consciência metalingüística é um conjunto de habilidades bastante amplo, mas o que há em comum nas atividades citadas é que todas pressupõem manipulação, ação e reflexão sobre a linguagem.
Dependendo do aspecto envolvido da linguagem, podemos classificar as habilidades metalingüísticas da seguinte forma:
tarefas que exigem atenção e reflexão sobre os sons da fala são atividades de consciência fonológica;
tarefas de reflexão sobre os aspectos gramaticais da linguagem são atividades de consciência sintática;
tarefas envolvendo relações entre sentenças e os contextos em que estão inseridas, são denominadas de consciência pragmática.
Embora se saiba que crianças bilíngües possam ter maior nível de consciência metalingüística, seria importante aprofundar em qual tipo de atividade essas crianças apresentariam maior desenvolvimento.
Apesar deste enriquecimento da linguagem, é comum observarmos em crianças bilíngües a “mistura” das línguas faladas, ou seja, a criança pode produzir, por exemplo, uma frase alternando elementos do português e inglês, o que a princípio não indicaria alguma anormalidade. Não somente em um enunciado a criança pode alternar códigos, mas também em um trecho mais longo do discurso (Houwer, 1997), demonstrando a capacidade de utilizar determinada língua dependendo de seu interlocutor.
Em relação ao desenvolvimento bilíngüe, sabemos que a criança segue o mesmo curso de uma criança monolingüe, ou seja, passa por um estágio de balbucio (emissão de sons e sílabas), inicia as primeiras palavras de forma isolada por volta de 1 ano, para depois de um período juntá-las elaborando frases, inicialmente mais simples e depois mais complexas.
Desta maneira não se espera maiores atrasos de fala em crianças bilíngües, mas não devemos esquecer que assim como existem variações cronológicas de desenvolvimento individuais entre as crianças que falam apenas uma língua, o mesmo pode ocorrer entre as bilíngües. Em algumas situações em que pais e professores suspeitem de atraso de linguagem em função do bilingüismo, recomenda-se consultar um fonoaudiólogo que poderá auxiliar a família em como proceder com a criança, avaliando se é necessário a exclusão de uma língua.
Embora saibamos de todos os benefícios em dominar mais de um idioma e que a habilidade para esse aprendizado é maior entre o nascimento e os 10 anos, vale avaliar se esse aprendizado está adequado às possibilidades cognitivas e emocionais da criança e seu interesse, evitando oferecer uma estimulação além do ritmo de desenvolvimento de cada um.
Este texto foi elaborado pela fga. Silvia Pellegrini Ruschel – equipe Plenamente. (www.plenamente.com.br)
Artigos relacionados:
- O que você deve saber sobre a Terapia Cognitiva com crianças. Maria Alice Fontes
- Crianças Superdotadas: como identificar e lidar com elas. Selma Boer, Maria Alice Fontes
- Dicas para o professor lidar com crianças hiperativas e desatentas, Maria Alice Fontes
- O que é a Depressão Infantil? Maria Alice Fontes
- Transtorno de aprendizagem não verbal: já ouviu falar disso? Cristiane Abe da Costa, Maria Alice Fontes
- A socialização infantil e o desenvolvimento emocional saudável. Alessandra de Camargo Costa, Maria Alice Fontes
- As mentiras que as crianças contam. Silvia Pellegrini Ruschel, Maria Alice Fontes
- Estresse infantil: existe e é mais frequente do que pensamos. Silvia P. Ruschel; Maria Alice Fontes
- Síndrome de Alienação Parental (SAP): saiba o que é isto. Alessandra de Camargo Costa, Maria Alice Fontes
- Você estará em São Paulo com as crianças na última semana de Janeiro?
- Oficina dos 5 Sentidos: 26 a 29 de janeiro de 2010
- Você sabe como se forma a personalidade? Maria Alice Fontes P. Novaes
- O que são os transtornos de matemática? Adriana Corrêa Costa, Beatriz Vargas Dorneles
- Ortografia: escrever corretamente é um dom ou depende do ensino nas escolas? Silvia P. Ruschel, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Você tem letra feia? Qual é o problema? Erika Bauer, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Deficiência mental e Síndrome de Down. Silvia P. Ruschel, Maria Alice Fontes P. Novaes
- As férias chegaram! Erika Bauer, Maria Alice Fontes P. Novaes
- O que é o Autismo. Silvia Pellegrini Ruschel, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Você sabe o que é Legastenia? Erika Bauer, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Dificuldades de Aprendizagem e os problemas relacionados. Silvia P. Ruschel, Maria Alice Fontes P. Novaes
- Ansiedade de Separação. Silvia Ruschel, Maria Alice Fontes
- O que é dislexia? Erika Bauer, Maria Alice Novaes
- Quem são os superdotados?
- A importância dos limites para a formação da criança
- Separação dos pais: como os filhos reagem a essa decisão
- O que é o Bullying
- A importância da atividade lúdica no desenvolvimento psicossocial da criança
- A criança obesa, estigmas sociais e baixa auto estima.
- Amigos imaginários permanecem até os primeiros anos da vida escolar.
- Brincar ou Teclar
- Vídeo-games violentos: psicólogos ajudam a evitar os efeitos prejudiciais em crianças
- A exposição de crianças à violência na TV pode desencadear comportamento agressivo em adultos
- Vídeo-games e TV duplicam o risco de obesidade infantil
- Obesidade Infantil
- Avaliação do Processamento Auditivo: do que estamos falando? (Mari Ivone Misorelli)
- Dificuldades de leitura podem surgir repentinamente após as séries iniciais
- Aliando trabalho e família
- O estilo de aprendizagem e a queixa escolar (Edith Rubinstein)
- Estudo ajuda a identificar crianças com depressão
- A aquisição de uma segunda língua
- Rotinas e rituais familiares podem melhorar o relacionamento e até a saúde da família
- Depressão dos pais aumenta o risco de ansiedade nos filhos.